quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Confusamente deprimente

Hoje cedo eu fui à Escola, como sempre, e já de cara tive um momento perturbador. No vidro da porta de entrada havia um cartaz: "É com grande pesar que informamos que o professor (...) faleceu no dia 22/09/2008, por volta das 21h. Seu corpo será velado e sepultado no dia 24/09/2008 às 14h" Eu disse perturbador, mas acho que foi algo pior, bem mais estranho. Tenho que contar-lhes algo...



Há uns 4 anos, mais ou menos, eu entrei na orquestra juvenil da Escola de Música e a primeira pessoa que eu conheci lá foi esse professor. Ele apareceu com um sorriso largo e foi logo me acomodando, apresentando para todos. Com o passar do tempo, ele foi gravando diversos DVDs de compositores e instrumentistas clássicos famosos para mim e me emprestou uma espaleira velha sua. Me contava histórias de suas filhas, de quando eram mais novas e de quando ele era um adolescente. Assim que me via, ia me dar um beijo e um abraço...

Mas, o tempo foi passando e eu notei que aquilo não era exatamente uma amizade. As pessoas começaram a me alertar, diziam que ele tinha segundas intenções. Eu, na minha inocência, nem notei e só depois de muitas conversas, comecei a me afastar dele. Senti-me um lixo, na verdade. Todos os garotos que já se aproximaram de mim, que se diziam meus amigos, tinham outras intenções. Eu realmente acreditava que existia amizade entre homem e mulher, mas depois que comecei a namorar uns se afastaram, outros se sentiram no direito de ter raiva de mim, outros simplesmente pararam de falar comigo! A verdade é que não tenho mais notícias de nenhum amigo mais! Enfim, na época que isso aconteceu, acho que tem mais de um ano, me revoltei, mas uma revolta interna, de não saber o que fazer, o que dizer, até descontei no pobre do ricardinho, tadinho, acho que ele lembra disso...

Semestre passado eu quase pirei. Tinha que olhar pra cara dele duas ou mais vezes por semana, me sentia enojada. Abandonei a orquestra... Por isso, neste semestre, resolvi assistir aulas de manhã. Fiz matrícula em cima da hora, quase perdi horário com professor, tudo porque eu não queria mais ver certa pessoa...

Quando olhei praquele cartaz, eu não sei o que senti. A primeira pessoa mais próxima de mim que já morreu... Eu nunca mais vou vê-lo, eu nunca mais vou poder consertar o que passou... Ao mesmo tempo eu me sentia um monstro porque eis que de repente brotou um aliviozinho lá no fundinho da minha alma...

A lágrima que caiu, era doce ou salgada? O que eu senti, foi luz ou foi trevas? Não sei... Só sei que foi assim... E foi horrível sentir.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

HomemXMáquina

Eu fiquei esses últimos 3 anos descobrindo formas de facilitar a vida das pessoas através da tecnologia. Meu curso é mais voltado para a automatização do processo das organizações, mas vemos formas de aumentar a acessibilidade de deficientes físicos, entretenimento e tenho até um projeto de compositor de músicas com meu amigo Daniel...

Mas eu fico pensando que muito desses filmes do futuro me assustam, mas são verdade. As pessoas viverão no ócio de suas gorduras saturadas enquanto as máquinas fazem tudo, tudo... Pensei sobre isso quando fui no restaurante semana passada. Uma mulher falava que esse negócio de comer dava muito trabalho, ter que mastigar cansava. Claro que era brincadeira, mas parei pra pensar que tudo que fazemos é dar algumas ordens às máquinas e elas fazem todo o resto. No trabalho, temos programas e mais programas facilitadores de cálculos, fórmulas e relatórios... Nos Bancos, apenas enfiamos um envelope pelo caixa eletrônico... Em casa, sentados no sofá, apertando o botão do controle remoto! Alguém já leu "Eu, robô" (Isaac Asimov)? Queremos mesmo nos tornar escravos das máquinas?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

À meia-noite...

Uma coisa que me lembro bem é que desde pequena eu via uma mania bizarra no meu pai: ele gostava de pegar objetos jogados na rua e consertá-los. Já pegou desde pregos e parafusos até escrivaninhas, inclusive um relógio com a bateria fraca que guardou num pote em cima da geladeira. Ficava horas e horas no fim de semana desmontando e montando coisas, serrando, colando, lixando e eu só olhando... Era massa ver aquilo, às vezes eu ajudava, mas queria fazer também, sozinha. Queria pegar o relógio de ponteiro da cozinha, a luminária da sala, mas ficava só imantando parafusos e brincando de mágica com a chave de fenda...

Mas conversas à parte, deixe-me contar um episódio interessante. Há uns cinco anos, eu morava em um apartamento na Asa Sul, ia pra aula de manhã cedo e voltava só depois das oito e meia da noite. Deitava cansada lá pelas onze da noite e dormia até as seis da manhã. Mas, num dia qualquer (aliás, não tão qualquer assim), ouvi um barulho no meio da noite. Reparei que era meia-noite e todo mundo na casa tinha escutado o tal barulho. Que barulho é esse?? Todos se levantaram e puseram-se a procurar de onde vinha. Um minuto depois e nada de barulho mais...


De manhã, o único assunto era esse. Será que eu estava sonhando? Não, todo mundo ouviu! Era um ruído estranho, agudo, meio agonizante, meio desesperado, mas fraco, muito fraco. Nha, deixa pra lá, esqueçam isso! E assim se foi. O dia passou e esquecemos o ocorrido. Mas, exatamente à meia-noite, o tal barulho! Que raios!! Será o quê que é isso?? Mas desta vez ninguém se levantou. Acho que depois da curiosidade descobrimos que aquilo era assustador...

Passou-se uma semana nessa dúvida cruel. Será um gato preso em algum buraco escondido da casa? Seria alguma mulher pedindo por socorro no rádio? De qualquer forma, tínhamos a certeza de que naquela noite todos esperariam dar meia-noite e descobriríamos o problema! Não me recordo bem, mas acho que cada um tinha um cabo de vassoura na mão. Pode rir, é engraçado mesmo, mas na hora ninguém duvidou de que precisávamos deles.

Adivinhe só: o tal relógio que meu pai achou na rua, quase sem bateria, e colocou num pote em cima da geladeira tinha um despertador programado para a meia-noite! A bateria fraca explica o ruído estranho que ouvíamos toda noite! Hehe!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Qual era o nome mesmo?

Um dia, na loja, apareceu um cara. Olhou direto pra mim e começou a falar, sem nem piscar um só instante. Falava que tinha acabado de voltar da Bahia por conta de uma luta de jiu jitsu, mas que precisava de dinheiro pra viajar pra São Paulo, pois se ganhasse a disputa de lá ele conseguiria patrocínio de uma academia famosa... Tinha um olhar desesperado, meio de pidão, meio de pena, mas cativante. Eu sorri pra ele e disse que não tinha nada, mas na mesma hora desisti e peguei 5 reais da minha bolsa e dei pra ele. Ele sorriu, agradeceu e foi embora. Logo, logo me esqueci daquele dia.

Passando-se talvez um mês, minha mãe me perguntou se eu conhecia um moço alto e musculoso que foi na loja ontem. "Não... como ele era mesmo?" E assim, depois minha irmã perguntou a mesma coisa uns dois dias depois e até meu pai. Aí um dia eu fui pra loja e recebi a tal visita daquele moço. Dizia que vinha me procurar quase sempre, mas eu nunca estava lá. Me disse que tinha ganho o primeiro lugar em São Paulo e conseguiu o patrocínio. Me mostrei feliz por ele e fiquei me perguntando quanto mais de dinheiro ele ia me pedir dessa vez. Ele puxou uma caneta do bolso e disse que tinha guardado pra mim de lembrança da competição, por eu ter ajudado ele. Foi embora e eu perguntei pro meu pai quantas canetas ele deve ter saído distribuindo pra todo mundo que o ajudou... Simplesmente meu pai começou a cantarolar, dizendo que eu tinha um admirador!

Vê se pode! Até os funcionários da loja ficaram me perguntando se ele era meu amigo, algo mais etc e tal...
Eu perguntava pra todo mundo o que eu fazia pra demonstrar pra ele que eu não tava a fim, mas todo mundo começar a cantarolar: "Lálálá, a Adriana tem um admirador, hihih..." Ele foi mais umas cinco vezes e eu não achava uma maneira de dispensá-lo sem ser grossa. Meu pai dizia que eu tinha que ser grossa e pronto, mas eu não sei ser assim. O cara me chamou pra ter aula à noite com ele, dizia que era professor e conseguia 50% de desconto na mensalidade da academia, perguntou o que eu ia fazer no dia seguinte e etc, etc, etc... O que fazer?? Eu não podia simplesmente dizer que tinha namorado porque pra todos os efeitos o cara não tinha dado em cima de mim nenhuma vez, só estava conversando!

Aí veio uma alma caridosa: um cliente entrou na loja enquanto eu conversava com ele e me perguntou qualquer coisa. Eu atendi o cliente e voltei pra continuar com a conversa. Reparei que ele estava de olho fixo na minha mão. Pela primeira vez ele viu a aliança... A aliança! Como não pensei nisso antes? Aí veio o pior (alguém tem um buraco aí pra eu enfiar minha cabeça?):
- Peraí, você tem namorado?
- Ué... Tenho, porquê?
- Poxa... Eu cheguei atrasado então?
- Hum? Como assim...?
- Eu penso em você todo dia, dou aula pensando no momento que eu vou vir aqui ver você... Tô apaixonadão, pensei que poderia ter dado certo...
- Ah, não... me desculpe, eu sou apaixonada pelo meu namorado! Tem quase dois anos de namoro e espero que venham muitos outros mais!
- Foi mal então. Não te incomodo mais...

Ele saiu meio de costas, com o olhar no chão, sem saber onde enfiar as mãos...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Só observando...

Hoje cedo fui à academia, como normalmente… Alonguei-me e fiz meia-hora de esteira, quase correndo. Senti um cheirinho estranho de queimado e fiquei me perguntando se era a esteira, será que eu a estraguei?? Abaixei-me e fiquei procurando o foco do cheiro, mas logo desisti... Não parecia ser um problema, já que parecia que ninguém estava sentindo o cheiro. Fiz minha série normalmente, mas sempre sentindo aquele cheirinho, até que me esqueci dele. Do nada, na máquina dos tríceps, senti como se as roldanas estivessem rompendo. Parei o exercício e toquei nas cordas de aço pra ver se estavam quentes. Nada. Então eis que surge alguém gritando que está pegando fogo e aponta pra algum lugar atrás de mim. O ventilador estava realmente em chamas! Alguns falaram pra desligar a energia, outros iam lá olhar de perto, mas o fogo continuava lá, a encher a sala de fumaça. Aí, enfim, surge o herói: um cidadão, de uniforme, que visivelmente trabalha lá, pegou um extintor e mandou ver! Aparentemente a situação melhorou, mas o local estava infestado de fumaça e pó do extintor. Obviamente, não haveria mais academia esta manhã...
Saí de mansinho, como sempre faço, somente a observar a movimentação e os rostos assustados que não parecem estar me vendo ali. Alguns ficavam paralisados, outros (principalmente mulheres) arregalavam os olhos e punham a mão na boca, ou senão, balançavam os pulsos e esperneavam. Eu não fiz nada. Tudo pra mim parecia sob controle. Enquanto o fogo se concentrasse do ventilador, nada mais se queimaria, não havia nada inflamável por perto. Além disso, de onde eu estava eu podia ver alguém chamando um responsável e o outro cara indo pegar o extintor. Tudo sob controle. Mesmo assim, me senti de fora da cena. Ninguém me via, ninguém interagia comigo, ninguém me perguntava qual passo seguir. Momento raro... Raro, mas percebo que assim se pode pensar melhor sobre o que está acontecendo.
Bebi água calmamente e uma velhinha aparece, resmungando: “Pegou fogo? Que bom! Adoro o fogo!! Assim é bom mesmo pra vocês aprenderem! Fica esse monte de marmanjão pulando aí e não querem que pegue fogo?!?” Essa velhinha é engraçada. Com certeza não sabia o que estava se passando ali! Tenho observado ela algumas vezes. Entra e sai sempre de cara fechada, quando pega algum peso faz uma careta feia, grita um “aiai!” bem alto e está sempre enchendo o saco de algum funcionário. Se algum deles não a atende de imediato ela fica lá, resmungando baixo, visivelmente xingando...