Eita blog paradão, não??
A primeira pessoa que eu conheci no mundo estranho que não era minha família chamava-se Elisa Rie Fugituka. Brasileira, mas filha de japoneses. Minha mãe me disse que não chorei no primeiro dia de aula, fiquei apenas olhando pra ela com os olhinhos querendo colo... Não me lembro disso, só lembro que no primeiro dia de aula a Elisa chegou toda sorridente se apresentando pra mim. Não me senti mais só, eu tinha alguém comigo. Ficamos juntas do maternalzinho até a primeira série, grudadas que nem unha e carne. Lembro-me como se visse agora na minha frente ela desenhando corações no caderno todinho, acentuando os pingos nos 'i' com corações. Mas acontece que os corações dela eram diferentes. Estranhos, pra falar a verdade. Primeiro ela desenhava uma gaivotinha e, embaixo da gaivota ela fazia um 'v'. Ficava um coração tão feinho e eu insistia em mostrar pra ela como eu tinha aprendido a fazer, desenhando primeiro o lado direito do coração, como um 's' ao contrário e depois o outro lado, mas ela dizia que ele era feio. "Feio?? Olha só pro seu coração!!" A verdade é que eu achava uma frescura acentuar os 'i' com corações.
Certo dia ela me contou que voltaria pro Japão. Eu não levei aquilo a sério até o dia da despedida. Fui de manhã cedo, num sábado se não me engano, pra casa dela. Uma casinha simples, mas bem arrumadinha. A gente subiu no tanque de lavar roupa, que ficava no quintal, e ficamos em silêncio, olhando pro chão. Então ela olhou pra mim e disse:
- Sabe como se diz 'tchau' em japonês? Sayonara...
- Prefiro que me ensine como se diz 'olá'
Ela sorriu, pulou do tanque e, me chamando pra brincar disse: Arigatô!
Minha primeira, única e inseparável amiga indo embora! E pior, pro outro lado do mundo! Como a gente ia fazer pra ficar horas no telefone rindo juntas dos desenhos na televisão? E discutir na escola sobre o coração mais feio? E quando ela iria lá pra casa brincar com as minhas irmãs? Quando?
Hoje eu percebo o quanto aquilo me mudou. Passei a não querer me apegar tanto às pessoas. Ainda me apego muito, quero muito ficar com meus amigos, mas é como se algo dentro de mim me dissesse pra não me aproximar tanto, "algum dia essa pessoa vai embora e você nunca mais vai vê-la" Hoje não sei mais da Elisa. Passamos os primeiros cinco anos mandando cartas uma pra outra. Uns três anos atrás resolvi mandar uma carta, pra saber se pelo menos ela estava viva, ao que descobri que ela esqueceu completamente o português, a mãe dela traduziu nossas últimas cartas...
Entrei na sala da primeira série sozinha, agarrada aos livros. Sentei na minha carteira de sempre e olhei pro lado. Vazia. A gente sempre sentava junto... A professora se aproximou da minha mesa e, com ar de desdém misturado com vitória, disse:
- E agora? Está sozinha! Com quem você vai começar a fazer bagunça, hein?
Olhei bem nos seus olhos, me perguntando de onde surgira aquele monstro. Então voltei meus olhos pro caderno. Peguei o lápis e comecei a desenhar gaivotas com 'v' embaixo...