terça-feira, 12 de maio de 2009

Passando mal

No auge dos meus maravilhosos 13 anos de idade, tive um dia terrível.

Cheguei na escola um certo dia meio cansada, não queria falar com ninguém. Estava arredia, estranha. Sentei numa carteira lá no fundo, encostada na parede. Olhava para os meninos rindo e me perguntava o que tinha de tão engraçado naquilo tudo. Foquei um garoto. Melhor, tentei focar. A vista ficou embaçada, as extremidades da minha visão começaram a escurecer e comecei a ver estrelas. Pisquei. Olhei de novo e me senti tonta. O garoto falava mas a voz saía grave, lenta, longe... De repente, uma pontada na barriga. Me levantei, apoiando arduamente na mesa e me dirigi à professora, que tinha acabado de chegar. Minha pior professora. Ela não tinha amor nem por si própria, eu costumava dizer. Ela sempre pegava a prova dos alunos e criticava sem dó as questões que erravam, chegava mesmo a chamar de burro, incapaz, delinquente. Uma vez ela inventou de pegar a minha prova (a primeira da chamada), disse meu nome em voz alta e foi dizendo o que eu errei. Tentei levar aquilo na brincadeira, ria pra todo mundo, mas por dentro eu me via em cima dela, fazendo seus olhos saltarem da órbita de tanto que eu a enforcava. Pois bem, voltando ao dia fatídico. Disse com a voz fraca e trêmula praquela víbora que precisava ir ao banheiro, mas ela disse que não, que esperasse um pouco. Voltei ao meu lugar, tentei prestar atenção, mas não tinha forças nem pra abrir os olhos. Me levantei no meio da aula, atrapalhei mesmo, era questão de vida ou morte, e já chorando disse pra ela que estava passando mal. "Ué, guria?? Porque não foi logo então? Fica aí choramingando, ai, tô passando mal, aiaiai". Me imitava pra turma toda rir de mim. Não liguei, só virei as costas e bati a porta atrás de mim com toda a força que ainda me restava. Agarrei-me na parede, com as mãos abertas, puxando minhas pernas bambas com os braços segurando a parede o mais forte que podia. Meus joelhos já tocavam o chão, nunca achei que o banheiro ficasse tão longe, tão... longe... Senti que ia desmaiar. Já respirava com dificuldade e minha cabeça girava a mil por hora. Olhava o corredor com um mínimo de visão, tudo escurecendo, cheio de bolinhas brancas surgindo e sumindo a cada instante... Tão... longe... tão........ longe......

'Adriana???? O que foi? Meu Deus do céu, venha pra minha sala!' Era a coordenadora que vinha passando no corredor. Nem precisava dizer que estava passando mal, mas ainda assim balbuciei não lembro o quê. Colocou-me em uma cadeira na sua sala e me deu um biscoito de água e sal. Não quero, não quero... 'Coma!' Mordi. Primeira mordida e as bolinhas cessaram. Segunda mordida e a visão foi-se clareando. Quero mais! Olhei furtivamente pro pacotinho de biscoito em cima da mesa e ela entendeu. Pegou um copo com chá e me ofereceu, no que eu rapidamente engolí. Hummm, nunca havia comido nada igual! Já sorria e conversava com a coordenadora, enquanto ela ligava pros meus pais. 'O que você comeu hoje, Adriana?' Ué, leite e pão, porque? 'Acho que está anêmica, tem se alimentado direito?' Foi então que me lembrei da semana toda sem café da manhã e nem jantar, só um almocinho pingado que eu empurrava... Eu não sentia fome. De satisfeita a passar mal direto, sem fome. Aí achava que era outra coisa... Nunca pensei que fosse isso... Voltei pra casa nesse dia. Dormi e comi mais do que nunca na minha vida. Mas o legal mesmo foi ver pela janelinha a cara de tacho da professora olhando o carinha juntando as minhas coisas no meio da aula dela!

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