segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"Um amor particularmente platônico

Felicidade era o nome dela. Apaixonei-me já na primeira vez que a vislumbrei. Aconteceu de repente, ela passou rapidamente e ainda tentei parar o mundo naquele instante, mas não foi o bastante, e ela fugiu. Perguntei se alguém viu, se anotaram a placa, se ela deixou alguma pista, mas nada, nenhuma vista. A não ser a minha. Só eu tive um lampejo de Felicidade, só eu enxerguei aquela mulher maravilhosa aparecer ali, do nada, apenas para mim. Mas também só eu a vi desaparecer ali tão facilmente depois de enfeitiçar um coração inocente. Então saí procurando aquela imagem em todos os sentidos: norte, sul, leste, oeste; noites e dias; praças, ruas, feiras e padarias; fui nos shoppings, fui nos bares, nas igrejas e nos mares; busquei os campos, tentei em todos os cantos; desci a Salvador, rodei o país inteiro atrás de meu amor; andei tudo, vasculhei tanto, e quando lugar nenhum era mais distante, e quando nem o mundo era mais tão grande, e quando não havia mais onde pisar, acabei parando no último andar, um último destino, uma casa abandonada. E sem pensar em mais nada, deitei para uma cochilada. Da janela vinha o brilho da lua, aquela luz que não é sua, mas reflete o seu olhar. E a dor que deu no peito, ao constatar não ter mais jeito, me foi interrompida por uma sombra, uma sombra de mulher. Mesmo sem enxergá-la direito, agarrei-me aos seus pés perfeitos e implorei que não mais, que não mais, que não mais desaparecesse, que jamais sumisse novamente. E ela, com sua voz rouca, disse ter me seguido feito louca durante anos e anos e panos de lágrimas. Esteve sempre comigo, apesar de eu decretar-lhe o castigo de amar outra mulher, uma outra qualquer. “Você está enganada”, disse eu, “só você é minha amada. Desde quando te-vi-e-te-perdi, toda a vida foi só tristeza”. Ela pôs-se a chorar, e no milagre do seu pranto, revelou seu rosto santo. E para minha surpresa, seu nome era Tristeza, lhe faltava beleza mas sobrava dedicação. Me amou cada segundo, esteve comigo em todo meu giro pelo mundo, mesmo eu na contra-mão. Contrariado, porém contagiado, casei-me com Tristeza e o tempo me fez poeta. Hoje ainda vivo na certeza de que essa tal Felicidade não era só ilusão. Pelo menos é o que diz meu coração. "

(Postado por Sidarta Cavalcante)

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